Vai, suporta aí.
Suporta a concentração, o foco.
Pra escrever, também pra muito mais.
Pra fazer aquela sequência de coisas que tu te propôs a fazer.
Suporta não distrair com a louça que ficou suja na pia e que o marido vai lavar só amanhã de manhã.
Suporta.
Suporta não olhar TV, não entrar nas maquininhas de fazer ver gente e se comunicar com gente.
Suporta a coceira da alergia. Não coça.
Suporta que tu não consegue tudo.
Que tu não vai ficar com o corpinho deuso que aquelas coitadas ficam se matando pra ter e suporta que sim, tu tá subjetivada nessa e que isso importa pra ti, sim, de um jeito incontrolável.
Suporta.
Que tu escreve vive milita aposta numa parada e que essa coisa te toma também, suporta a incoerência, a contradição.
Suporta que teu corpo não vai ficar como o da tua irmã gêmea, parâmetro inevitável, flagrante, de uma vida inteira.
Suporta o machismo que te ronda, e os limites de apontá-lo pra quem não suporta que seja apontado.
Suporta tua ansiedade.
Esses silêncios necessários.
Suporta não falar tudo pra todo mundo porque sabe que não suportariam.
A coceira de novo. Suporta.
Suporta a grana curta. A vontade de comer o chocolate na geladeira. O julgamento dos outros. O proibido. A vontade de fugir.
Suporta o ritmo. O que vão te dizer. A tentação da vitimização. Suporta ultrapassar os limites que os outros acham que tu tem.
Suporta mudar o verbo: sustenta.
Sustenta essa porra.
Sustenta teu desejo. Sustenta teu sofrimento. Sustenta a mulher que tu quer ser.
Sustenta.
Sim, é sustentar.
Sustenta a escrita. A experiência. A irregularidade. A vergonha. A contradição. A tua beleza. O teu talento. A incompletude do texto. O texto mal-acabado.
Sustenta-te a ti, sempre em vias de te acabar. Sustenta que quem coloca os teus limites é tu. Sustenta que tá tudo na tua cabeça. Sustenta que não importa o que os outros digam, receitem, achem que sabe de ti ou do teu processo. Não importa.
Sustenta tua imperfeição. Tuas cagadas. Teus fracassos.
Sustenta tua antipatia. Tua sinceridade. Teu não saber.
Tuas ancas. Tuas celulites. Teus músculos. O batom vermelho. A unha quebrada.
Sustenta teu sorriso. Tua espontaneidade. Teu mistério. Tuas coisas que não são acessíveis de primeira. Sustenta tua verruga e tua barriga.
Sustenta teu cheiro e tuas ideias.
Sustenta teu pensamento, teu pensamento, tua capacidade de produzir pensamento, mesmo que não interesse ao outro tua capacidade de produzir pensamento.
Sustenta tua capacidade de viver de muitas formas, de ser muitas.
Sustenta tua experiência.
Sustenta tua potência.
Sustenta, sustenta, sustenta.
Isso te dá músculo, e assim podes mudar de novo o verbo
Sei lá, quem sabe vira afirmar.
(Agora sustenta não revisar)
15 de agosto de 2015
Sentiu urgência de poema.
Rédea solta, passo louco, um qualquer de traço indomado.
“Lava, combustão”, a voz no palco cuspia.
E a guitarra feroz entrou em erupção.
Quis arrebentar palavra com a desenvoltura daquela música.
Daquela musa que cantava.
Mas como, se a pele era rocha fria?
Desesperou-se por chama.
Chamar por algo.
Incendiar.
Chamou socorro:
Poema!
Pôr marca.
Manchar algo.
Dançar no escuro. (Like no one is watching.)
Queimar no inferno. (Só de raiva.)
Gozar consigo. (Just for the sake of it.)
Não conseguiu esperar. Fechou o olho e poemou ali mesmo, sem
nenhum pudor de si.
Poemou por tanto e com tanta coisa, tão ébria de som e de escuro, que depois só lembrou
desse tiquinho.
Foda-se. Já é um começo.
11 de abril de 2014
Pequena oração.
Ó deusa da inteligência, sei que é demais pedir um raciocínio mais rápido, uma facilidade imensa de escrita, um dicionário analógico implantado na minha cabeça.
Dai-me então desprendimento e capacidade de botar o dedinho no foda-se com mais frequência. Obrigada. De nada.
21 de setembro de 2013
Desespero pouco é bobagem
Qual é mesmo a minha questão de doutorado?
Sobre o cuidado de si do militante de direitos humanos?
Sobre as novas formas de manifestação hoje?
Sobre uma determinada postura ética diante do mundo?
Sobre alegria e política?
Sobre os anarquismos e os marxismos?
Sobre tudo isso e nada?
Oh, céus.
17 de abril de 2013
trecho perdido de romance ou trecho de um romance perdido
antes de meter-se debaixo do chuveiro, tirou a roupa e deteve-se diante do espelho.
a imagem cortava-lhe na altura do umbigo.
umbigo este que abrigava - mal e mal - uma pequena verruga da qual nunca gostara.
ali seguia ela, impávida em sua cor levemente esverdeada, postada na beiradinha do tal nó na barriga.
tratou logo de correr os olhos pelo resto do ventre, que afinal, percebeu, não a desagradava tanto. achou bontitinho, até. nos últimos tempos os abdominais devolveram-lhe duas leves concavidades nas laterais do umbigo. quase sorriu.
registrou as marcas horizontais que lhe riscavam o tronco. devem ter sido produzidas pelo tempo sentada, as pequenas dobras de uma adiposidade bem aceitável ali, pensou.
reparou ter a pele mais pintada de manchinhas marrons do que anos atrás.
lembrou-se de quando contava as pintas da mãe. eram muitas. dizia que era como contar as estrelas: nunca iria conseguir terminar de contar.
pouco acima dos seios, pendendo pequenos e levemente separados, a pele e a musculatura do peitoral. brincou por uns instantes de enrijecê-los. pareciam totalmente dissociados das mamas.
os anos estavam ali impressos; via-se melhor do que imaginara que veria aos trinta.
num gesto automático, puxou a cortina e ingressou no banho: o tempo continuava correndo.
12 de julho de 2012
Sem mais, colo o box brilhante da Nina Lemos aqui.
É preciso clicar na imagem para ler o box.
Fotografado em: http://revistatpm.uol.com.br/revista/122/reportagens/voce-deu-conta-de-tudo-hoje.html
4 de julho de 2012
Inspirações de partituras
Percebo-me num esforço descomunal para andar na linha adulta.
Talvez - que azar o da nossa geração! -, em nossos tempos, os pequenos fracassos e frustações não estão em extinção, mas sim nossa capacidade de lidar com eles.
Antes: nossa capacidade de admitir que eles estão espalhados por aí.
Ou à espreita.
Requer habilidade para digerí-los.
Antes: comê-los.
Quando foi mesmo que ficamos tão sérios?
Tão desconfiados?
Tão úteis?
Quando foi mesmo que a pasta de currículos ficou mais volumosa do que a de "espancamento de teclado"?
Como aconteceu de a poesia empoeirar por tanto tempo, esquecida (ou desprezada??) n´algum canto de mim?
Virou imperativo preencher vazios.
Não ter a paciência necessária com os versos da vida.
Dar espaços para seus rastejos.
E relampejos.
Errâncias no teclado dizem tudo: troco "perto" por "parto" e, em seguida, por "porto".
Alguma eu tem de renascer, alguma eu tem de chegar.
Mas como saber se é hora de chegar ou partir?
Começar ou parar?
Focar ou dissolver?
Descubro o desespero bem aí, no não saber.
Não concluo nada: desfecho.
Preciso caçar as delicadezas que me nutrem de abismos.
Andar nessa linha não é questão de equilíbrio.
É questão de vertigem.
Funk (desleixado) do desespero
Eu só quero é ser feliz
Pagar o aluguel na cidade que escolhi
E poder me orgulhar
Saber que o psicólogo tem o seu lugar
3 de julho de 2012
Sei
Dos nossos risos marotos que se encontram na sala
Do jeito que os teus olhos caem perto do nariz e levantam perto das têmporas
Dos calafrios renovados que de vez em quando aparecem sem mais
Da arquitetura coreografada das nossas pernas um pouco antes de dormir.
Sabe?
Sabe sim.
28 de junho de 2012
Post secreto
Não ser radical (e com isso conquistar sorrisos de aprovação).
Alguns de admiração, até.
Não ser politicamente correto.
Mas ser a favor dos Direitos Humanos (ou dizer que é).
Mas ser mais a favor das práticas ou empreendimentos sustentáveis do que dos Direitos Humanos.
Não ser de direita.
Nem de esquerda.
(O que é isso? Never mind, assunto chato).
Não ser intelectual.
Mas se declarar inteligente (só achar não basta).
Não ser totalmente mainstream (mas uma pitada é bom).
Corrigindo: ser meio intelectual.
Ser meio de esquerda.
Sempre bonito, claro.
Ser meio artista (ou achar que é, ainda que não crie porra nenhuma).
Ser meio publicitário (ingrediente muito importante!).
Se importar um pouco com a moda (a mais fresquinha novidade é criticá-la, ainda que - não conte pra ninguém - se mantenha sob seu crivo).
Ser contra receitinhas (apesar de reproduzi-las, reproduzi-las, reproduzi-las, reproduzi-las, reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las
reproduzi-las).
25 de junho de 2012
poema do golpe
o vice versa sobre o contrário
o verso veta o titular
o título destitui o titubeio
que tateia o vício do revés
visse?
o rei
contra
dito.
que erra
nas cores sujas da cidade
uma poesia rastejante se esgueira
pretO e brancA
belA e feiO
como uma deformação saturada
febril
doentia
latejante de prazeres e dores
no meio da avenida e na beira
quase louca
toda cheia
berrando sussurros para aqueles que
ratos como nós
ainda acreditam
22 de junho de 2012
Cinza.
Do ventre seco do vento brotam umas ganas de solidão.
Ele - o vento - bate decididamente na janela - dramáico.
Mas o pedido dela - da solidão - não é nostálgico; tem cara de nada.
E pode-se ouvir uns meneios de mata atlântica com suas investidas sensuais.
Mas como não estou muito para poemas cheirosos
E nem muito paciente para companhias
A tropicalidade foi barrada do lado de fora.
Tô mais para um inverno esta noite.
A página em branco do papel é mais paciente do que a barra piscante da tela branca do word.
A tela branca do word é mais paciente do que o quadrado pequeno da postagem do blog.
Ainda assim, o quadrado pequeno da postagem do blog é mais paciente do que a linha vazia do Facebook.
Quero mais lacunas, brancuras, silêncios, por favor. Me dê umas horas a mais no fim de tarde - e uma folha branca muito grande cheia de nadas, por gentileza.
24 de novembro de 2011
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