23 de outubro de 2007

já era hora

.
.agora eu não pago mais se receber ligações.
(21) 9405 3242
.
.
.
(o que significa: não liguem pro antigo, pois agora é o número da filha do seu Isidoro.)
.
.
.

22 de outubro de 2007

(corta) cola cintilante

brincadinha

1. Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2. Abra-o na página 161;
3. Procurar a 5ª frase, completa;
4. Postar essa frase em seu blog;
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6. Repassar para outros 5 blogs.

Ei-la:
"Por exemplo: se um triângulo existe, deve dar-se a razão ou causa em virtude da qual existe; se ele não existe, deve dar-se também a razão, ou causa, que impede que ele exista, ou, por outras palavras, lhe iniba a existência."

20 de outubro de 2007

vírgula

Acho que devo um elogio ao Rio.
.
A traquinagem do povo. Ótima.
.
.
.


.
.

Humor


*

A vontade saiu pra passear um pouco.
Foi longe dos que de praxe detinham ela.
Foi pescar, dizem.
Ela mesma estava carecendo de um pouco de vontade.
Voltou, na maior cara-de-pau, como se sair dali nunca tinha feito.
Eu não contrariei, sabe como é vontade.
Bem de lua.

*
.


Rio cenas III


Aulas

"Prof: São 16:50. Resolvemos ir p/ o bar. Venha conosco aqui no..."
.
.

Saindo da aula. Vista trivial. Cotidiana.



Bia e suas idéias.



Cris e seus prólogos.


Alice e seus discursos.
.
.


Ruth e suas paradas.

.

.

Palavreando

Saiu uma vontade de Manoel de Barros.

Bifurar

Multidência

Acontecimar

Bricolagir

Polenizar

Devinhar o tempo

Tempestar uma cabeça

Barrear um Manoel.

11 de setembro de 2007

Rio coisas II

No Rio a gente vai sair de carro e tem um outro estacionado do lado do teu, em fila dupla. Aí o flanela tem a chave do carro, mas ele te pede pra tirá-lo, porque ele não dirige.
*
No Rio a gente sai de manhã e às 9 parece que o sol é do meio-dia. A gente pega engarrafamento na avenida Atlântica, mas não se importa. Nem dá inveja das milhares de pessoas que estão se exercitando na beira da praia. Vale só de estar vendo o Pão de açúcar no caminho pra aula.
*
No Rio quase não buzinam se tu entra numa das centenas de avenidas de alta velocidade. Buzinam quando tu pára. Seja onde for, na situação que for, não pode é parar. No Rio se corre pá caralho.
*
No Rio não te dão muito bom dia, muito boa tarde, não sorriem muito, nem te olham muito. Mas, de repente, do nada, te dão carona, te convidam pruma festa na casa deles, e, quando tu nem ia agradecer, o frentista te atende com uma simpatia sem igual. Impossível prever.
*
No Rio tu pode levar tiro de policial ou de bandido. Mas tu pode também andar de noite na rua, em muitos bairros, e não sentir medo. E é seguro. A Globo - e sei lá mais quem que nos enfiou na cabeça que no Rio é guerra constante -, é nojenta e mentirosa. Claro, não só por isso.
*
No Rio a gente pode correr ou caminhar ou andar de patins ou andar de skate ou andar de bicicleta na areia na ciclovia no calçadão na hora que quiser. Mas academia é o que mais tem em Copa. E Zona Sul, a rede de supermercados mais cara que eu já conheci. Mas se pode ir à feirinha de Ipanema ou a qualquer hortifruti e comprar as frutas legumes e verduras mais baratas que eu já vi.
*
No Rio as paredes são de favela. A sala de estar, a cozinha, os quartos são feitos de asfalto e prédios grudados uns nos outros. As casinhas mal acabadas estão sempre visíveis, como que decorando o cinza horizontal e organizado com o caos irregular semi-colorido e fascinante. As janelas são o mar, a lagoa e a floresta. As duas coisas sempre vistas, não importa onde tu esteja na cidade, são as favelas e o Cristo. Onipresentes.
*
No Rio os carros se enfiam num Rebouças cheio de fuligem. Em dois (ou três) toques, tu faz uma trilha pela mata Atlântica e não ouve absolutamente nada além do mico que passou de uma árvore pra outra.
*
No Rio as pessoas tão sempre gritando. Tu acha que elas brigam constantemente, mas não. Brincadeiras ou xingamentos, o negócio é falar. Até no super as velhinhas reclamam da fila pra pesar cebolas. Carioca odeia fila. E vive furando.
*
No Rio os azuizinhos não são azuizinhos. Usam um colete cinza de cooperativa de flanelas, mas trabalham pro governo. Eles são híbridos de parquímetros com flanelas. Tu dá dois pila pra eles, eles põem o ticket da prefeirura no limpador de pára-brisa e cuidam do teu carro. Dezenas de carros estacionam em cima das calçadas. Nunca vi serem multados.
*
No Rio tem um monte de gaúcho. Isso é bom, apesar de haver um fascínio dos cariocas expresso por meio de piadas de gaúchos gays. E fazem isso pra se aproximar, não pra implicar. Difícil lidar com isso. No Rio tem uma comunidade gay enorme. Nunca tinha visto tantos.
*
No Rio dizem que precisam de legenda pra quando eu falo. "Afudê" é palavrão meio pesado, apesar de o "bah" deles ser "porra".
.
.
Vai entender.
.
.

Rio coisas

Essas ironias da cidade:

No bairro nobre de Ipanema, no miolo das boutiques e restaurantes caros, eis o Paz e Amor. Destoando na arquitetura e na cor dos clientes em contraste com os seus arredores, uma refeição de PF por seis pilas. Prato amontoado de arroz, feijão, costela e agrião, dá pra dois. E dois era o número de mulheres almoçando ali.
Um vestido de seis mil e, ao lado, comida farta por seis. Dividido por dois, três.

Só no Rio tem disso: a sobremesa saiu mais cara. Na melhor sorveteria da cidade pelo quinto ano consecutivo, uma bola de sorvete de jabuticaba - sem conservantes, sem corantes, sem gordura trans nem polpas congeladas - por seis reais. Uma verdadeira preciosidade.

No Rio, a sobremesa pode custar o dobro do almoço. Apenas a meia quadra de distância.

Ah, que maravilha.

28 de agosto de 2007

Rio cenas

grafites na rua do Vininha


Grazi e Batata no Bip bip


falando de aparelho do Bip bip.
Bia e Paulo Rasta à direita.



o namorado da Bia é o Sandro Goiano.
ao fundo, os músicos do samba.




soneca no meio da semana em Grumari.





a silhueta das montanhas e um certo friozinho de 20 graus.


























19 de agosto de 2007

First impressions

CARIOCAS SÃO BONITOS
CARIOCAS SÃO BACANAS
CARIOCAS SÃO SACANAS
CARIOCAS SÃO DOURADOS
CARIOCAS SÃO MODERNOS
CARIOCAS SÃO ESPERTOS
CARIOCAS SÃO DIRETOS
CARIOCAS NÃO GOSTAM
DE DIAS NUBLADOS

CARIOCAS NASCEM BAMBAS
CARIOCAS NASCEM CRAQUES
CARIOCAS TÊM SOTAQUE
CARIOCAS SÃO ALEGRES
CARIOCAS SÃO ATENTOS
CARIOCAS SÃO TÃO SEXYS
CARIOCAS SÃO TÃO CLAROS
CARIOCAS NÃO GOSTAM
DE SINAL FECHADO

Adriana acertou. Mas o leitor tem de ser atento: ela diz "sacanas", ela diz "não gostam de sinal fechado", ela diz "modrenos", expressões que carinhosamente criticam os cariocas. E repito: ela tá certa. No trânsito, pisca não existe e como em todos os lugares, prevalece a lei do mais espertinho. Pena que é uma lei moderna mesmo, e sacana. São alegres, simpáticos e craques, mas um tanto modernos demais. O contato é forte e expansivo, quase que por um medo do encontro. Enquanto na Barra tem-se de andar por uma hora e atravessar quatro portões gradeados (e identificar-se em todos eles) pra conseguir encontrar alguém. Já conhecido, por sinal.
Da nossa província, tenham em mente as vantagens.

.
Sete dias de Rio não é nada. Quem sabe me pecho na rua com a gafanhota e trocamos uma idéia?

.

18 de agosto de 2007

tripulantes

Foram três dias de gasolina, suor, frio, chuva, sol, perdas, ganhos, medos, tensões, gritos, confusões, risadas, pão integral (e não o colonial!!!), pastéis, músicas repetitivas e o melhor chope de nossas vidas.
Viva nós! We made it! E que pena que eu tive que ficar e vocês, ir.
.
A-do-rei.
.
Agora vejam se mudem as suas músicas de seus respectivos mp3s.
.
.
.

diálogos

petry diz:
e como ta o dia aí?
ali.ce.fué diz:
lindo
ali.ce.fué diz:
24 graus
ali.ce.fué diz:
praia
ali.ce.fué diz:
peguei uma cor
ali.ce.fué diz:
tô chapada
ali.ce.fué diz:
e amo esse lugar
ali.ce.fué diz:
NADA MELHOR DO QUE FUGIR DO FRIOOOOOO
ali.ce.fué diz:
e agora tá todo mundo dormindo, é aquele clima pós almoço na praia, as pessoas dormindo, o sol começando a baixar, eu tô escutando Los Hermanos, a flor, mei baixinho...
ali.ce.fué diz:
nham nham nham
ali.ce.fué diz:
vou ali terminar a louça...
petry diz:
e eu to de ressaca num frio com chuva indo ver o tricolor
ali.ce.fué diz:
lamento muito
ali.ce.fué diz:
de verdade
ali.ce.fué diz:
acho inclusive que todos os gaúchos tinham que migrar pro Rio pra ficar perfeito.
petry diz:
é, inclusive o tricolor
ali.ce.fué diz:
é. isso mesmo!

10 de agosto de 2007

Pelo mundo

eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
cores de almodóvar
cores de frida kahlo, cores

passeio pelo escuro
eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca,
uma cápsula protetora

eu quero chegar antes
pra sinalizar o estar de cada coisa
filtrar seus graus
eu ando pelo mundo divertindo gente
chorando ao telefone
e vendo doer a fome nos meninos que têm fome

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo
e os automóveis correm para quê?
as crianças correm para onde?
transito entre dois lados de um lado
eu gosto de opostos
exponho o meu modo, me mostro
eu canto pra quem?

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
minha alegria, meu cansaço?
meu amor cadê você?
eu acordei
não tem ninguém ao lado

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

Adriana Calcanhoto

8 de agosto de 2007




ir-se, ir-se.
livrar-se de livros, fotos, luzes, cachepôs, chapéus, quadros, móveis, imóveis.
destacar-se de grupos, encontros, rimas fáceis, calafrios.
desfazer-se de gentes e fazer malas.
voltar para fora, abrir caminhos.
nomadizar as bordas, os cabelos, o chão, os poros.
fincar-se em outro, em outros, em outra cidade, para alçar vôos de asa delta pela orla, pela beira, pela areia.
apostar mais, e ganhar, e perder, e deixar de ganhar, e vender, e emprestar-se um pouco.
ir-se e rir-se, desfalacer-se, multiplicar-se, correr demais para encontrar alguém.
olhar para trás, olhar para o lado, e temer, e ter, e ter, e desfazer-se, e desfazer-se.
não partir só, portar mundos, fundos, olhares, pactos, virtuais, mãos.
levar consigo malas, baús, afetos, mães, pais, tijolos e plumas.
deixar pedacinhos com muitos, máquinas e texturas e corpos e letras.
partir, partir-se, espalhar-se.
intensificar o que foi, o que há, o que pode ser.
e, quem sabe, ser.




.



31 de julho de 2007

Mesa de bar


(da série "postei porque tava afim")



































29 de julho de 2007

Me aguarde! hohohoho


teimosa

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora não querer.

25 de julho de 2007

Historinha.

Era uma vez uma menina que não gostava de ler nem de escrever.
Nunca soube qual deles causava o outro. Em cada Natal ela sabia que iria para a casa da avó paterna e que ganharia o que a família gostava de chamar de "presentes educativos" - o que, para ela, era o mesmo que dizer "presentes chatos". Todos pacotes retangulares, densos, uns mais finos e outros mais grossos (ou devera ela já saber que existiam as palavras "delgado" e "espesso"?), empilhados ao redor de uma árvore bem pequenininha. Parados. O divertido era ver os nomes das primas recortados de revistas e jornais colados nos pacotes. Aquilo era divertido! Um belo efeito visual - apesar dela, na época, desconhecer esta expressão. No entanto, o conteúdo era sempre o mesmo: os monótonos livros.
Nada contra eles especificamente, bem pelo contrário: ela ouvia histórias toda noite, antes de dormir, lidas e contadas pela mãe. Mas não adiantava tentar fazê-la ler. Ela simplesmente achava que tinha muita coisa mais empolgante para fazer. Mesmo na escola, quando sua irmã deleitava-se com os livros obrigatórios a cada semana, ela só dava uma engambelada na professora e se safava de ler aquelas intermináveis páginas de tédio e corpo imóvel. Ela precisava se mexer, correr, falar, pular e se esconder. Descobrir coisas ao tocar nelas. Sentir na pele. Na hora de escrever, que vergonha sentia! Odiava as histórias que escrevia, não tinha jeito, aquilo não era pra ela! Ficava vermelha e não queria mostrar pra ninguém.
Só que se esconder é o que ela quis, muito tempo depois, quando entrou na faculdade. Todos ali eram bem crescidos - ela também! - e agora teria de ler, sim. Ainda conseguiu enganar professores (ou será que a si própria?) e não ler uma linha sequer de alguns livros, apesar de ir bem nas provas. O que eles não sabiam era que durante as aulas, ela fazia o que sempre fizera na infância: ouvia estórias. As estórias que os mestres lhe contavam. Com anotações minunciosas, ela gravava muito bem a teoria e caprichava nos exames. Ainda aí ela gostava de acreditar que a facilidade incrível que tinha com a língua portuguesa vinha de origens desconhecidas, como se tivesse nascido com um gene-livro-de-gramática, ao contrário do que sempre se comentava ("fulano escreve muito corretamente, isso é por ter lido muito!"). Ela não decorava regras; ela simplsmente sentia como era o certo para escrever. E secretamente desdenhava aqueles colegas que cometiam deslizes bobos. Enquanto isso, sua irmã, que sempre "escreveu melhor" do que ela, estudava jornalismo e produzia textos com todo gosto, deixando a família orgulhosa. Ela satisfazia-se em escrever o necessário.
Acontece que um dia era deparou-se com o inevitável. Teve de mergulhar nos livros. Não bastaram mais anotações em aula. Era como se alguém tivesse jogado ela dentro de uma piscina! Afogava-se em xerox, muitos xerox. E olha que nadar sempre tinha sido o forte dela. Caneta, sublinha, faz ficha. Sua irmã chegava a estranhar como se lia naquele curso! E a menina emburrou-se. Enfrentou meses e meses de oftalmologistas, dores de cabeça, madrugadas de leituras. Não gostava. Revoltava-se. Matava aula. Namorava. Passava bilhetinhos. Jogava papo fora. Agora sim, tinha decido, seria displicente, irresponsável, inconseqüente, desinteressada. Pela simples vontade de experimentar sê-lo, afinal nunca o tinha sido exatamente.
E foi por essa mesma curiosidade de tocar em coisas e pelo mesmo tédio com o mesmo que mesmo bem estável e feliz, saiu. Mandou-se, escafedeu-se, mudou-se, exilou-se. Quase dois anos sem estudar. Quase sem ler. Quase emburreceu. Voou o mundo, mas desesperou-se. Viu o quanto aprendia e aprendia com o que vivia, mas também tudo escapava como os balões de gás se nos escapam. Até hoje não sabe se sentia-se assim, meio vento, por uma ânsia generalizada e meio fútil de querermos sempre guardar tudo, reter tudo, chavear o diário e botar ele lá no fundo da gaveta... ou se por descobrir que o fato de só ela saber e lembrar daquilo tudo não era suficiente. Ao menos não para ela, que sempre foi inquieta.
Foi então que pousou. E tinha uma fome inominável. O cérebro roncava. Precisava ler. Precisava escrever, também. Era como se agora ela estivesse pronta pra sossegar e devorar um bom livro - com direito a molho caprichado e um bom suco! Palavras, linhas, parágrafos, quanto mais colorido o prato mais nutrientes tem, é o que dizem, e para ela quanto mais variedade lesse, mais vitaminada se tornaria. Teve um tempo em que até a mistureba foi demais, teve um pouco de indigestão. Desacelerou-se.
Eis que numa aula dessas ela conheceu um menino. Era um menino que tinha lido muito. Sabia muitas coisas mesmo. Coisas diferentes dela, até poque ele era bem diferente dela. Tinha viajado o mundo de outro jeito. Com o Marco Polo, por exemplo. Ela de repente gostou dele, nem sabia bem porquê. Esse jeito de gostar que é meio raro por aí, um jeito de gostar pelo que ele era. E não porque ele tivesse dado uma flor pra ela. Ou tivesse dito muita coisa pra ela. Aliás, ele não dizia muita coisa pra ninguém. Mas ela gostava que ele não dissesse. E gostava de tentar descobrir. Como sempre gostou: tocando. Pela simples vontade de experimentar.
E um dia ela estava conversando com seus amigos, com sua irmã, com sua mãe, e até com aquela avó que recortava e colava seu nome nos presentes educativos de Natal. E viu que queria mais isso: viver experimentando os livros. E um dia ela escreveu e não ficou com vontade de se esconder. Decidiu que ia mostrar sempre o que escrevesse! Foi então que ela teve uma idéia muito boa: ela ia levar uma vida em que se mexesse e tocasse nas coisas e experimentasse ao mesmo tempo em que lesse e escrevesse. Contou isso pra todo mundo de quem ela gostava, inclusive pro menino. Ele adorou a idéia e disse que ele também queria fazer isso.
E aí a menina, se sentindo meio burra, meio inteligente; meio fraca, meio forte; meio mesma, meio diferente, resolveu se mandar de novo. Mas não escafedeu-se, não exilou-se. Ela foi contar estórias e ouvir mais estórias. Ela foi tocar nas coisas e sentir na pele. Ela foi se esconder de vez em quando também. Ela foi voar num mundo bem mais pertinho.
Ela foi mas sabia que, em cada Natal, ela voltaria pra casa daquela avó, que nem existia mais, e sorriria ao ver aquela pilha de presentes educativos.

22 de julho de 2007

misstrago


Na despedida mais fake que já houve, o que não faltou foi:
pessoas, aquelas pessoas;
cerveja;
cara-de-pau;
gargalhadas;
brindes;
mentiras;
madonna;
momentos te considero;
verdades;
intervenções das quais não me lembro.
Amnésia pouca é bobagem.
Nada melhor que uma noite destas em que até parabéns me cantaram pra no dia seguinte dar as clássicas risadas a cada flash que irrompe na memória. E a cada um, retorno junto às horas passadas. De repente sair de Porto Alegre não só foi de fato adiado como também é como se não importasse. Porto Alegre é que nunca vai sair de mim.

11 de julho de 2007

feixes de folhas
....................fagulhas
..........................falésias
.................................falhas
rios de disparos
.....................discursos
............................díspares
.......................................dispersos
portos de pontos
.........................partidas
..................................pontes
...........................................partes


cruzamentos ....críticos.. ..... .camaleônicos.......catapúlticos
.................caóticos......catastróficos ............catados
.
ei-los engendrados em estação estável eclética engatados enfáticos em elos
.
......amorfos..........................................afáveis
...........amontoam-se..... arteiros .............alheios
................... .........alegres....... avoados .........a algo além ar
.
.
e zás! zepelim a zarpar!
.
.
.

Vir-a-ser

.
.
.

ali, se fosse o acolá, ali seria lá, mas não seria ali C, mas ali se ia um D como se Lá fosse Dó e ali Sí ao invés de ali Sol... porque ali sempre só... tem o sol de lá em si sem dó...ali será?
.
.
.
by Fruet

5 de julho de 2007

.
.
.
.
imperdível
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

o que der na telha!

.
.
.
.
.





.
.
.
.

4 de julho de 2007

Conjuguemos






beber.







gargalhar.







não estar (nem aí).







desconfiar.





equilibrar




cair.



28 de junho de 2007

de derrota, fez-se vitória.
e fez-se rio.
de frio, fez-se calor.
e fez-se frio - na barriga.
de dor de barriga, fez-se alívio.
e dor de cabeça.
de suavidade, fez-se rispidez.
e inconstância.

permutam-se, insistentes, festas e aflitos num redor-dentro.
.

19 de junho de 2007

Conclusão

Ser bom em algo não é difícil.
Pode-se ser bom em costurar.
Pode-se ser bom em escrever.
Pode-se ser bom em escovar os dentes.
Pode-se ser bom em jogar futebol.
Pode-se ser bom em trabalho em equipe.
Pode-se ser bom em vinhos.
Pode-se ser bom em matemática.

Mas como já disse um sábio velho escabelado, tudo é relativo (à sua utilidade prática e a outras pessoas que não são tão boas em). E como já disse eu mesma (uma jovem escabelada e tantos outros), estamos orbitando numa galáxia falocrática, então a tendência é essa mesma: adorar e adornar o grande deus Ter ou o seu duplo, Ser. Mediocridade não interessa a ninguém! Só se for blasè, tipo o Bandini. Me agrada muito o Fante, mas não sou muito chegada nos blasè. E pra não vencer tem que ser com classe. Tem que fazer uma música bonita que nem a do Camelo. "Ah, cansei. Sou largadão e não ligo pros outros". Se não, tu é só um neurótico meia boca.

Então vamos nos orgulhar das nossas habilidades menos palpáveis.
Um viva ao charme!
Um viva à esperteza!
Um viva à facilidade em fazer bons trocadilhos!
Um viva à criatividade aplicada ao Orkut!
Um viva ao estilo!
Um viva à sorte!
Um viva ao improviso!
Um viva ao ecletismo!
Um viva às invenções quase imperceptíveis, tipo um novo jeito de dar laço no cadarço!

O negócio é ser bom sendo-se, mesmo que seja mau. E, no invisível, sorrir (intercalando com choro). Ser e Ter no unútil, só pra variar. E, com frequência, abandoná-los. Fazer-se irreconhecível.
Pratique o quase.

16 de junho de 2007

Pescaria IV

.
.
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.
.
Italo Calvino - As Cidades invisíveis
.
.

15 de junho de 2007

atrasada, como sempre

.
.
Ô, lá em casa...
Correio bom é assim: a gente manda um telegrama no dia dos namorados e a encomenda chega na segunda-feira!
Delícia!
.
.
.
.

blow it up

.
.
.
Eu não sei se são as experiências com bancos que ando tendo, se é a má sorte em oficinas automobilísticas, se é o Foucault que eu ando lendo, se é a sensação da injustiça que teima em impregnar meus pensamentos desde o jogo do Grêmio. Claro está que meu espírito revolucionário está em ebulição. Meu lugar é de inconformidade, inquietação, raiva.
.
Não me venham com gracinhas. Não me digam calma. Não me falem de palavras ternas. Não me sugiram suavidade. Não me evoquem prudência.
.
Me convidem apenas aqueles que se aventurarem em uma experiência radical. Nada de bebedeiras e louqueadas ingênuas. Falo do radical. Algo subversivo. Algo que se faça e depois se saia dando uma risadinha sacana. Dirigido a uma pessoa, não. Não me refiro a mesquinhices. Quero máquina de guerra. Quero Che Guevara micropolitizado. Quero intervenção urbana. Quero Edukators. Nada de Piratas do Caribe.
.
Sim. Estou no ponto para uma boa transgressão.
.
.
.

14 de junho de 2007

Lançada a campanha


GRÊMIO, TRI: EU ACREDITO.
.
.

7 de junho de 2007

Que caiam de Boca




Depois de passar pelo já mofado Santos de Pelé no jogo enfartante de quarta...





...enfrentaremos os pentacampeões na final.
Que caiam de Boca, atropelados por nós.
Que nosso fator caseiro faça diferença como nunca.
Que se prove que Carlos Eduardo es mucho mejor.
Que se dê o espetáculo.
.
.
Que a festa seja nossa.

5 de junho de 2007

Acho que estou enlouquecendo


Despois de ficar meia hora na fila do Banco do Brasil para pagar uma multa, seguindo as orientações da estagiária do saguão da agência, chego no caixa e a senhora diz que não posso pagar ali. Só no Bansrisul. Ou depositar um cheque na conta que será descontado só amanhã de noite e, como quinta é feriado, só poderia pagar a conta na sexta. Já tinha passado das 16hs.

Expliquei pra mulher que eu tava há cinco dias nessa função e tinha seguido a orientação da mocinha do saguão. Ela riu, lamentou. Pois é. Próximo!


Saí da frente dela e, antes de sair do banco, berrei

VAI À PUTA QUE PARIU ESSA PORRA DESSE BANCO!!!


Nem sei que cara fizeram. Mas algumas pessoas devem ter gostado.

as voltas que se dá

existem muitas voltas que se pode dar:
a volta da ciranda, quando se é pequena
a volta por cima, quando se cai
a volta da curva, quando se quer desviar
a volta ao passado, quando se quer recuperar
a volta na cabeça, quando se perde a razão
a meia-volta, quando se quer retornar.

para dar qualquer uma, como eu já disse, deve se dar. dar foi e sempre será o mais difícil. e a gente é teimoso, teimoso demais quando insiste que não se pode mais dar e só receber. talvez um pouco preguiçoso também.

*****


tudo o que "descobri" lendo Freud na verdade eu já sabia.
tudo o que eu "descobri" lendo Foucault na verdade eu já sabia.
todo esse jogo de poder é o que nos deixa febris. a busca por ter algo ou ser algo ou pensar algo melhor do que algo outro. mal nos damos conta, mas é o que mais fazemos. no entanto, de alguma forma, tem um ponto em que a gente estanca. em que cedemos. e é como já me disseram: a gripe é um vírus e ataca milhões de pessoas. não tem muito o que fazer, a não ser esperar. estamos emaranhados no doentio jogo de poder. nada a fazer.

(ou seria melhor se tratar? pode-se tratar com médicos, médiuns ou música. nada, porém, garante uma cura da vontade de poder...)

como eu disse antes, contato é coisa para bichos, então melhor se tratar sozinhos. é como temos feito, sagazes sujeitos do contemporâneo. ficar e pedir tempo foram as duas invenções de maior sucesso das últimas décadas. tudo facilita o ficar sozinho. assim temos nossos PCs, blogs, telefones e TVs (a não ser que dê um curto circuito ou que algo se quebre, eles estão sempre ali pra ti!). e aí a gente finge estar curado. ô maravilha! voltamos ao belo império do estar bem. voltamos à paz do estar sozinho.

reparem bem, "voltamos". não é a mesma coisa que "dar a volta". mas quem se importa? dar é coisa de mulherzinha. e mulher já saiu de moda há muito tempo.

4 de junho de 2007

Garrafa de Cólera

Tu vai num show de uma banda independente (e portanto não paga um absurdo para as grandes gravadoras) e te param numa blitz na Salgado Filho. Aí tu pensa Mas na Salgado Filho não passam só ônibus? Exato, mas deixam o trânsito parado atrás de ti e te atrasam em nome de uma piada chamada segurança pública. Sim, porque motoristas sem documentos em dia e multas em dia e taxas em dia são um perigo à sociedade.

Aí te cobram o documento deste ano pois tu tens o vigente no ano passado. Aí tu pensa Poxa, mas eu já paguei o IPVA e ainda não chegou o meu documento em casa. Tu fala isso pros policiais, que não fazem a mínima idéia de como o DETRAN funciona e dizem que tu tem que atualizar isso o mais rápido possível.

Aí tu entra no site do DETRAN, afinal hoje em dia tudo é moderníssimo e automatizado. Mas não diz ali quanto tu deve exatamente. Ou melhor, diz, sim, mas todo aquele absurdo que tu paga há anos pra manter esse simples serviço completamente impessoal provavelmente foi gasto com o construtor de sites mais barato que encontraram. Aí tu liga pro número - pago - pra sanar tuas dúvidas, afinal tu quer cumprir as leis e pagar tuas contas. Te mandam ir a um caixa do banrisul, Que lá eles te dizem tudo o que tu tem que pagar. A atendente ri durante a ligação, pede desculpa, ela riu do colega dela e tu perdoa, pois afinal tu não pode achar que as pessoas tão rindo de ti assim, no mais. Elas são seres humanos como tu e têm o direito de rirem de seus colegas. Aliás, que bom saber que ela tá se divertindo no emprego, tu pensa.

Aí tu vai no Banrisul, tu tá com febre, mas hoje é teu último dia pra pagar o que tu deve - que ainda tu não sabe direito - no caixa. Ainda bem que eu não tô trabalhando, tu pensa, Pois senão eu não poderia vir no banco assim no meio da tarde no fantástico horário em que ele funciona em nome daquela piada que se chama segurança pública. Tu leva o documento de cobrança do teu IPVA e a confirmação de agendamento do pagamento do mesmo, pra mostrar que tu pagou. A caixa te explica que o pagamento fora apenas agendado, quem sabe tu não tinha saldo na tua conta no dia do agendamento. Aí te recomenda pagar o que deve hoje mesmo, já que o IPVA venceu e é acrescido de juros diários. Aí tu paga, mesmo sabendo que tu vai ter que pagar um terço do teu dinheiro no fim do mês pra tua terapia, mais sies restaurações porque tu tem cárie, mais o celular, mais a TV, mais a internet, mais o telefone, afinal tu não pode estar de fora destas tecnologias. Aí tu te lembra que aqueles filhos da puta da oficina que te cobraram oitocentos reais pra concertar meia dúzia de coisas ainda te devem uma peça sobre a qual tu pergunta todo santo dia e eles respondem que vão Comprar hoje mesmo, senhora, a gente te liga!

Aí tu sai do banco decidida a esclarecer isso no Banco do Brasil, afinal o que aconteceu com o agendamento que eu fiz? Ainda tem uma multa que de tantos juros tá custando quinhentos reais e consta no sistema da porra do DETRAN como vencida.

Aí tu, que economizou no fim de semana e gastou só com paracetamol, Sorinan e xarope (dando dinheiro pros grandes laboratórios porque tu não achou o remédio homeopático que tu queria ter comprado), resolve pegar um vídeo, já que o cinema é muito caro e tu não é velho nem estudante nem deficiente nem funcionário público nem assina Zero Hora pra ter descontos.

Aí já é segunda-feira e tu vai no Banco do Brasil e paga pra tirar um extrato de cada mês dos agendamentos e descobre que em um deles tu realmente não tinha saldo no dia e ninguém te avisou - como fazem quando teu pagamento do cartão de crédito não é efetuado (ah, sim, claro, mas aí o pagamento é rpa eles, do banco!). E aí tu olha o outro agendamento, aquele da multa, que inclusive tu recorreu na justiça mas perdeu, e tinha dinheiro na conta aquele dia, sim. E tem dois pagamentos no dia, menores, mas por algum motivo foi praqueles dois pagamentos que - sei lá eu quem, o robozinho dos débitos automáticos??? - do banco deu preferência. E, é claro, não te avisaram nada sobre a multa que não foi paga. Nem os merdas do DETRAN, nem os pau-no-cu do banco.

A responsabilidade é sua, senhora, de conferir se tinha saldo no dia. Claro, a responsabilidade sempre é nossa. Sujeitinhos nojentos vestidos de azul roubam até nossas calças, mas a responsabilidade é nossa. Alienados vestidos de cor-de-sarja carregam escopetas na Nilo Peçanha pra fazer uma "operação de rotina", mas a responsabilidade é nossa. O banco avisa até se tu tá na China sobre uma fatura de cartão atrasada. Tu paga pra agendar um pagamento. Tu paga pra conferir teu saldo. Tu paga pra acessar a internet. Tu paga pra poder ficar negativo na conta corrente. Tu paga pra habilitar teu cartão no exterior, mesmo que ele tenha vindo com o nomezinho International ali no canto. Mas ah, se tu não verificou, naquele dia, o teu saldo, mesmo que tu tenha estado de férias numa praia remota e sem um puto caixa automático, poxa, como tu não tinha então um laptop pra conferir e transferir dinheiro de uma conta corrente a outra, perante uma pequena taxa de cinco reais? A responsabilidade é tua.

Aí tu pergunta Bom, como eu faço pra conversar sobre essa preferência que foi dada pra duas outras contas que, essas sim, poderiam ter ficado penduradas? e o guri do saguão diz novamente Senhora, a responsabilidade é sua, eu só sou responsável por manter esta parte da agência funcionando. Bom, então vou falar com alguém lá dentro. Não, senhora, a senhora liga pro número 4001... Como assim, ligar? Eu estou aqui em carne e osso no banco e eu tenho que voltar pra casa e ligar??? Mas claro, hoje em dia até contas de celular tu só pode cancelar via telefone. Nada de presença. Isso assusta demais as pessoas. Isso é pra bichos. Eu lamento muito, mas não poso fazer nada. Óbvio.

Então tu fica puta. Tu fica puta porque tu tem que ligar pra porra da NET e cancelar a promoção que eles te dão, tendo que praticamente implorar pra moça parar de te enfiar os canais plus pela garganta, pelo simples fato que tu não tem poder aquisitivo pra isso. Tu fica puta porque a Claro te cobra a metade do preço dos minutos se tu tem um plano de conta, e não pré-pago. Tu fica puta porque tu só tem opção de ver Globo na TV aberta, se tu não tem NET. Tu fica puta porque tu tem que baixar o preço do teu apartamento pra poder vendê-lo. Tu fica puta porque é tua responsabilidade cuidar dos dentes pra não ter cárie e é tua responsabiildade pagar as multas e taxas do banco e é tua responsabilidade dirigir e estacionar corretíssimamente e é tua responsabilidade o que tu gasta em lazer e é tua responsabilidade declarar claramente tudo o que tu gasta e ganha e é tua responsabilidade pagar o Imposto de Renda.

E tu quer dirigir derrapando, tu tá morrendo de raiva e quer correr, mas tu não pode, senão leva multa. Então melhor ir pra casa. Gritar no teu apartamento, ó, privacidade do lar, mas tu não pode, porque também o condomínio pode te multar. Sim, te multa sem falar contigo, pois contato é coisa muito forte, lembra? Então melhor sair pra rua, mas como gritar no meio da rua? Não pode. Esse comportamento é anormal e tu pode ser multada ou mesmo levada pela polícia ou o que for para manter aquela piada que se chama segurança pública. Então melhor sair da cidade, vai com teu carro pra longe e grita o quento tu quiser! mas não pode, tem que pagar a baratíssima gasolina pra fazê-lo e tu lembrou que a porcaria do teu carro de merda tá na reserva de novo. Então tu pensa Melhor fazer terapia. Até tu lembrar que ela come um terço do teu orçamento. Melhor renunciar a si mesmo. Mlehor se tornar o que tudo mundo é: organizado e dentro da lei.

E não adianta. Tu acaba pagando área azul pra estacionar o carro e escolher as fotos da tua formatura, que também tu vai ter que pagar, comprando a pílula, pra não engravidar, e mais paracetamol, que a dor de cabeça agora tá insuportável.
Amanhã tu vai ter que pagar aquela multa de quinhentos reais pra não ter mais juros por cima dela. E mais xarope. E deixar de ir no show da banda independente, esse mês.


Mas não reclame de barriga cheia. Hoje em dia se pode tudo. As coisas estão muito mais fáceis com a tecnologia. Aliás, elas estão muito mais baratas e inclusive há uma tendência sendo observada por diversos teóricos dos saberes acerca do ser humano em direção a um certo misticismo e à humanização. O Real está forte. As informações, mais acessíveis. Você pode ser o que você quiser, desde que faça por merecer. Quem não consegue é por preguiça.
A vida no contemporâneo é cheia de possibilidades.
Sei.

1 de junho de 2007

Una ciutat I


Lá no fundo o trem ia-se.
Trazia-me, antes, ao primeiro plano.
E num zás-trás, ela ficou.
Eu me trouxe.
Záz, zi-zi-zi... tá!

Constipar

.
.
Necessita-se de riqueza. Moedas, quem sabe-se lá. Especiarias de polietileno e poliamida.
Há de descosturar-se. Desentupir-se. Sentido de sonho.
Tupi. Literar-se. Mais Protuguês. Mais leitura. Mais envergadura. Mais bragança.
Uma opção pela léxica cultura e pela côncava saúde.
Uma porção de antissépticos e adstringentes para espectorar-se, advertir-se, adonizar-se.
Derrubar umas notas guardadas e umas prateleiras atrolhadas para sujar-se e limpar-se hipoalergenicamente.
Massa branca e massa cinzenta em alternância dulocrática. Fibrilação neuro-cardíaca.
Investigar-se, instigar-se, intrincar-se em imanantes imundícies inducorantes.
Indignar-se. Iodar-se.
Amidar-se em glúten. Acidular-se. Advir-se. Adivinhar-se.
.
Quero outrar-me. Ser 100% algodão. Lavar à mão com água fria.
.
.

Pescaria III

Agora, você está longe da margem: ah, sim, c0mo está longe da margem! Durante muito tempo, acreditou na existência da outra margem. Não é mais o caso. Contudo, você continua a nadar; cada movimento o aproxima mais do afogamento. Você não respira, os pulmões queimam. A água parece cada vez mais fria e, acima de tudo, amarga. Você não é mais um garotinho. Vai morrer agora. Não é nada. Estou aqui. Não i deixarei afundar. Continue a leitura.
Lembre-se, mais uma vez, de sua entrada no domínio da luta.
.
Michel Houellebecq
.
.

d(o)entes

Frio de cortar.
Fio pra cortar.
Fura feito faca, faz fiiiiiiii
e dá um ventinho feio.

Frio era ele,
forte,
firme,
fincando a agulha para o fluído a dor evitar.
Qual!
Fazia doer o não falar.

Nas paredes puramente brancas, fixei o olhar.
Fácil, foi quase dormir.
Palavra na ponta da língua,
dormente.

Finalmente
pude enxergar
que justo ali na frente
tinha uma cruz
e até mesmo eu, nem santa nem crente,
podia, quem sabe,
rezar.

Hoje fui no dentista mais uma vez. Tenho tudo que uma pessoa pode ter de problemas com dentes. Tudo bem, pensei, pelo menos não tenho crises de pânico nem músculos mal formados. Que fichinha essa de ter cárie! A risadinha interna se esgotou em seu cinismo quando ele me disse É, tem mais seis restaurações pra fazer.
Me desorganizo em dentistas, já mencionei antes. Sou o clichê das tiras de jornais. Não entendo quem tem medo de psicólogo.
Mas como um dentista é cheio de virtudes! O mesmo sujeito que me cravou de anestésico e apoiou seu pé na cadeira pra arrancar, entre discretos esguichos de sangue, depois de serrar em quatro o meu ciso, estava ali agora esculpindo com broca e resina as cavidades dos meus molares, numa demonstração de exímia motricidade fina e perfeccionismo. Impressionante. Eu não tinha medo dele antes de extrair meus cisos. Hoje não só o respeito, mas também sou fiasquenta.
.
Depois de tentar me distrair daquele robô que te aponta a luz pra boca, olhando prum parafuso por vários minutos, reparei na janela e no céu azul. Pra completar meu papel em crônica do Luis Fernando Veríssimo, notei a igreja, único prédio visível pela janela. Olhei sua ponta aguda, cinza, e a cruz fincada no alto. Quase rezei. Mas não. Aquilo ali me lembrava demais uma broca.
.
.

31 de maio de 2007

Impagável


30 de maio de 2007

Da série Intervenções Urbanas Geniais




em catalá.


(vamos brincar de tradução? quem se aventura?)





22 de maio de 2007

Das despedidas


Caminho sozinha pelas ruas de Barcelona. Fui frustrada por um mal-entendido que me fez ficar 1h esperando de pé na frente da Champanheria, tendo de ver dezenas de pessoas se embebedando com cava buenisima e barata e se empanturrando de entrepans suculentos. Vou, então, de volta à cidade velha e de repente me vejo triste. Investigo intimamente minha melancolia. Saudades antecipadas de alguém que eu teria de deixar na tarde seguinte, quando seguisse ao aeroporto para partir? Não. A Carol eu veria em breve, fosse no Natal ou no ano que vem. A família eu veria em poucos dias, no Brasil. Os amigos de lá, esses estavam em seus lugares, como sempre, saudades já esgotadas nos reencontros desses dias. Tristeza em voltar a Porto Alegre? Ou mesmo em estar encaminhando-me ao Rio, cidade nova, estranha? Não. Ao invés disso, um prazer me vem ao lembrar dessas duas queridas cidades brasileiras. Talvez seja algo mais subjetivo, o desânimo de retornar à vida de obrigações e compromissos que afinal eu escolhi. Mas nada disso revelou-se como motivo convincente.
Sinto, isso sim, um impulso praticamente incontrolável de abraçar o chão. É isso. Quero abraçar a cidade. Olho os prédios da via Laietana, nem tão charmosos assim, mas os amo. Amo cada pedrinha da carrer Ferrán. Amo os loucos e bêbados da Plaça Reial. Amo até mesmo o catalão. Ora, deixar Barcelona não foi fácil na primeira vez. E muito menos o é agora.


Vai ver Barcelona é esse amor do passado que ficou mal resolvido. Nunca tivemos tempo de enjoar uma da outra. Acabou mal acabado, porque eu sempre tive que ir embora. Eu o quis. E agora, quando a gente se reencontra, é apenas por uns dias. O gosto de quero mais fica na boca. Quando estamos reacostumadas uma com a outra, eu vou embora. Ainda que a gente mude com o tempo, tem essa química que nos faz vibrar quando a gente se vê.


Quem sabe um dia consiga colocá-la em primeiro lugar na minha agenda da vida, e não apenas por um fim de semana. E aí possamos passar longas semanas juntas, fazer todos os programas que ainda não fizemos, viajar nos seus arredores, nos conhecermos melhor. Brigar, ter crises, discutir a relação. E aí pode ser que dure só por uns meses. Pode ser que tudo não passe de uma paixão fulgás. Mas pelo menos vai ter um fim bem resolvido, e deixá-la será mais fácil do que o é agora.


Ou não. Talvez esse em-a-ver alimente a prazeirosa vertigem de sempre querer revê-la.

.
.
.

3 de maio de 2007

Pescaria II

.
.
Os afectos atravessam o corpo como flechas, são armas de guerra. Velocidade de desterritorialização do afecto.(...) Anéis partidos.
Gilles Deleuze & Félix Guattari - Mil Platôs vol. 5.
.
.